As estrelas representam um corpo celeste que sempre fascinou a espécie humana, lá no alto sempre a brilhar com toda a sua imponência e altivez. Sempre inatingíveis, longe do alcance físico e sempre perto da alma. O processo da sua formação é um conjunto de complexos processos físicos, algo que o mais comum dos mortais não vai nem nunca vai ter interesse em aprender. A complexidade de processos atribui à estrela não só o seu estatuto, mas também o seu infinito valor. O facto de cada passo de esse método ser único e depender de um conjunto de fatores para atingir o seu sucesso final, faz com que existam algumas estrelas que brilham mais que outras; faz com que existam algumas estrelas que são mais estrelas do que outras.

A criação de um jogador de futebol é igualmente um mistério cientifico. A sua compreensão pode não depender de integrais e derivadas, ou de ligações nucleares entre protões e electrões, mas descobrir a fórmula de sucesso para continuamente criar “estrelas” no mundo do futebol é algo digno de um prémio Nobel. Em semana de Liga dos Campeões, em que muitos são os candidatos a “estrela” mais brilhante da jornada, existe um nome que não consigo esquecer, Saúl Ñíguez.

O conto de fadas deste jogador começou há muito tempo. Aos 11 anos já atuava na cantera do Real Madrid. Volvidos dois anos trocou de clube, mas não de cidade, e mudou-se para o Atlético. Madrid. O seu crescimento foi rápido e desde cedo conseguiu mostrar todo o seu potencial. Estreou-se aos 17 anos na equipa principal do Atleti, num jogo da Liga Europa diante do Besiktas. Cholo Simeone percebeu de imediato o seu potencial, porém, com toda a sua mestria, achou que era necessário um pouco de maturação da sua personalidade futebolística e decide emprestá-lo ao Rayo Vallecano.

O jovem espanhol causa furor e é considerado um dos principais responsáveis pela época de sucesso do clube de Vallecas. No pequeno clube de Madrid adquiriu umas das competências mais importantes na sua carreira, a sua versatilidade. Habituado a jogar numa posição mais adiantada no meio campo, descobre que possui igualmente habilidade e talento para jogar na posição 6, ao estilo de Busquets e não de Paulinho Santos. Um verdadeiro pêndulo que não só equilibra a equipa, como ainda espalha classe no passe. O fino recorte técnico que demonstrava no trato da bola não passa despercebido e a é realçada a sua importância na construção de jogo da equipa. A sua mutabilidade foi levada ao extremo quando este é colocado a central ao lado de José Castro. Responde com a mesma classe, como o mesmo empenhamento e qualidade.

Na época seguinte volta à casa-mãe e ganha cada vez mais importância na equipa colchonera; assume-se como um jogador importante de equipa e afirma-se de vez como jogador de 11 inicial. Alternava entre o banco e a titularidade, tanto jogava no lugar de nomes como Gabi, Tiago, Arda e Koke. Este grande médio centro aumentava a cada dia a sua importância na equipa. A sua afirmação final chegou no dia de 7 de Fevereiro de 2015. Num jogo diante do Real Madrid, Saúl entra para o lugar do lesionado Koke. Precisamente 10 minutos depois, uma jovem “estrela” nascia. De bicicleta, após cruzamento de Siqueira, o pequeno grande Ñíguez marca e coloca a sua equipa a vencer por 2-0. Empolgado pelo golo, o pequeno espanhol enche o campo e abafa um atordoado Toni Kroos. O resultado final foi de 4-0, mas podiam ter sido muitos mais. Uma das maiores exibições de sempre do Atlético de Simeone fica indubitavelmente marcada com o selo de Saúl Ñíguez. Desde esse dia até hoje vários recortes de jornais podiam ter sido guardados em honra a este grande jogador. Excelentes exibições, sangue, suor, lágrimas e muito magia foi deixada em campo.

Um toque de brilhantismo, de puro sortilégio aconteceu ontem em Madrid. Mais uma página que nunca mais será apagada da história do futebol. O golo que Saúl (sim, essa “estrela” que nasceu das mãos de Simeone e que não custou milhares de milhões de euros) marcou diante do Bayern é simplesmente mágico. A determinação com que dribla quatro jogadores adversários e remata para o canto da baliza de Neur é maravilhosamente singular. Classe e talento não lhe faltam e com Del Bosque a assistir na bancada será que vamos ver o jovem espanhol a honrar nomes como os de Iniesta e Xavi no Europeu de França? Eu acredito que sim, Del Bosque é um homem sensato, percebe o talento e a magnificência que Saúl Ñíguez representa.

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