Rafa Soares: pé esquerdo abençoado
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Longe vão os tempos em que a lateral esquerda era o calcanhar de Aquiles da selecção portuguesa. Depois de bons períodos com Dimas, Rui Jorge e Nuno Valente, as opções vindouras nunca conseguiram vingar até à feliz adaptação de Fábio Coentrão. Para além dos ‘tapa-buracos’ Paulo Ferreira e Ricardo Costa, foram cogitados ou passaram por lá nomes como Duda, Jorge Ribeiro, Tiago Pinto, Antunes, Hélder Lopes, André Marques e o próprio Eliseu, titular nos últimos jogos, face às sucessivas lesões de Coentrão. André Almeida também lá fez uma perninha no último Mundial.
Tendo em conta que a renovação é uma prerrogativa que tem que ser assegurada na selecção nacional, assim como as cada vez mais constantes limitações físicas de Fábio Coentrão e a idade de Eliseu, a posição de defesa esquerdo tem já pré-reserva de Raphaël Guerreiro, um miúdo cheio de talento que cresceu em França, mas que escolheu representar as cores de Portugal. Há, contudo, outro modelo de grande lateral esquerdo a maturar na liga portuguesa.
Trata-se de Rafa Soares, emprestado pelo FC Porto à Académica. O jovem de 20 anos destacou-se na última semana pelas duas assistências para Pedro Nuno e Gonçalo Paciência, insuficientes para materializar um bom resultado para os estudantes que acabariam por perder por 3-2.
Pegando neste capítulo da influência nas partidas, vejamos os seus números em comparação com os seleccionáveis de Fernando Santos:
| 2015/2016 | Rafa Soares | Eliseu | Coentrão | Raphaël G. |
| Jogos | 30 | 38 | 19 | 34 |
| Golos | 6 | 0 | 3 | 3 |
| Assistências | 11 | 2 | 2 | 2 |
Escalpelizando o quadro, facilmente se retiram duas conclusões: i) Rafa tem tantos golos como os restantes três jogadores juntos e ii) tem praticamente o dobro das assistências. Estes números valem o que valem, claro está, e o jovem academista joga num patamar mais baixo do que os restantes, porém, não podem de forma alguma ser desprezados.
Rafa é um lateral de origem e sempre jogou nessa posição, mas apresenta números como se de um extremo se tratasse. Na presente temporada, dividida em FC Porto B e Académica, o esquerdino soma 6 golos e 11 assistências em 30 partidas. Nada mau para um defesa esquerdo participar activamente no jogo ofensivo da equipa a cada 1.7 jogos.
Estes dados relativos a Rafa ganham outra relevância se os compararmos, por exemplo, com os extremos habitualmente titulares no clube de origem, designadamente Brahimi e Corona. Ora, o argelino tem 8 golos e outras tantas assistências em 43 jogos, o que perfaz um golo ou assistência a cada 2.6 partidas; no caso do mexicano, o caso ganha outros contornos, uma vez que tem 8 golos e 3 assistências em 38 encontros, logo, apenas a cada 3.4 jogos é que Corona participa efectivamente nos tentos da sua equipa.
Face a estas evidências, não é de estranhar que Rafa Soares agarre um lugar no plantel na próxima temporada, uma garantia que Pinto da Costa confirmou na última entrevista que concedeu a Júlio Magalhães. Como se a sua qualidade e os números que apresenta não fossem suficientes (e são), a continuidade de Layún é uma incógnita e José Ángel é erro de casting assumido e com certeza uma carta fora do baralho para quem quer que seja o treinador dos dragões na próxima época.
Além de todas as virtudes aludidas, Rafa é um jogador experimentadíssimo a nível de selecção. O canhoto representa Portugal desde os sub-16 e já actuou com a selecção das quinas em mais de 70 ocasiões.
Rafa é o protótipo do lateral moderno: a pujança, alicerçada nos seus 182 cm, a disponibilidade física para aguentar correrias durante os 90 minutos e qualidade técnica são alguns dos seus predicados. Todavia, a maior qualidade de Rafa prende-se com o toque de bola. O jovem português é dono de um senhor pé esquerdo que coloca a bola onde quer. Parece mesmo que o esférico ganha olhos quando é batida pela canhota de Rafa. Daí que tenha um elevado número de assistências. O forte pontapé é também um dos cartões-de-visita deste jovem que muito promete.
Apesar dos números fenomenais, é óbvio que Rafa parte atrás de todos os outros laterais numa eventual luta pela presença no Euro 2016. Apesar disso, é um elemento a ter em conta num futuro próximo e os Jogos Olímpicos podem desde já ser a sua primeira montra internacional. Podemos ficar descansados: com os dois Rafaeis na defensiva esquerda, Portugal não terá que se preocupar com essa posição nos próximos 10 anos.




