Existe um assunto que não consegui esquecer esta semana. Pensei muito bem se o deveria escolher. Cheguei à conclusão que não o poderia deixar de lado. É um assunto que envolve uma das maiores figuras portuguesas da atualidade e que causou uma enorme celeuma tanto cá como em todo mundo do futebol. Esta semana, Cristiano Ronaldo, após derrota com o Atlético de Madrid em pleno Bernabéu – a terceira em três anos – e depois de praticamente ter visto o seu clube dizer adeus ao título, afirmou: “Se todos os jogadores estivessem ao meu nível, talvez nós já seriamos líderes”. E continuou: “Eu não quero desrespeitar ninguém, mas quando os melhores jogadores não estão disponíveis é impossível ganhar. Eu gosto de jogar com o Karim [Benzema], Bale e Marcelo. Eu não estou a dizer que não gosto de jogar com o Lucas Vasquez, Jesé e Kovacic, eles são grandes jogadores, mas não é a mesma coisa”.

Compreendo perfeitamente a frustração de Ronaldo. Ele como um dos melhores jogadores da história quer sempre ganhar, quer ser sempre o melhor. Ninguém, apesar de todos os títulos já conquistados, demonstra maior vontade e querer em continuar a vencer títulos e a manter-se ao mais alto nível. A frustração é normal, pois a personalidade competitiva não deixar ser de outra forma, porém, o que questiono é que desde que chegou a Madrid a sua frustração começou por vezes a dar lugar a algum excesso de vedetismo.

Declarações como estas não são singulares. Desde que o seu contrato se iniciou que Ronaldo teve relações tempestuosas com algumas figuras do Real Madrid. Florentino, Mourinho, Valdano, Casillas são nomes sobre quais o ego do português melindrou. O passado de relações difíceis continuou esta época e começou com Benitez, quando este estava no comando do plantel. Alguns jornais chegaram a veicular que Ronaldo referiu que o presidente deveria despedir o treinador, uma vez que assim não iriam ter hipóteses na luta pelo título. É verdade, Benitez fez um trabalho horrível à frente dos merengues, todavia, parece que desde muito cedo começou a ser empurrado do lugar pelos “notáveis do plantel” do Real Madrid em que se inclui o português.

Outro assunto controverso chegou já sob a alçada de Zidane. O francês, quando iniciou a liderança no clube, decidiu alterar algumas das regras. Uma das quais teve implicações diretas com Cristiano. O craque foi proibido pelo presidente e pelo treinador de viajar para o Norte de África, mais propriamente Marrocos. Este tem feito do Magrebe um destino regular para passar os momentos de folga, contudo, os diretores do Real Madrid temem que isso venha a afetar a sua performance. A reação de Ronaldo não foi a melhor. Após uma vitória contra o Espanyol este decidiu desobedecer às ordens e viajou para Marraquexe para gozar dois dias de desafogo. Deste este episódio até ao mais recente, foi uma série de altos e baixos e uma mão cheia de declarações questionáveis.

Que Cristiano Ronaldo é um dos melhores jogadores do mundo não tenho dúvidas! Mesmo numa época em que as coisas não parecem estar a correr da melhor forma, este conta com 35 golos em 34 jogos. Um nível exibicional assim só é considerado baixo porque falamos de Ronaldo. O português é um dos melhores marcadores da Europa, o seu nível de qualidade fez elevar a fasquia de uma tal forma que quando só marcar 35 golos faz soar alguns alarmes. O seu nível individual é tremendo, talvez como nunca antes visto na história do futebol. O seu nível coletivo tem sido um assunto completamente diferente; o seu futebol não tem sido capaz de elevar o nível de jogo da equipa. Este, sim, é o verdadeiro problema que parece afetar o clube blanco e o estatuto do português. O valor coletivo de Cristiano tem baixado e o valor das suas prestações para o jogo da equipa tem sido cada vez mais posto em causa.

O português começa a não saber lidar muito bem com isso e descarrega a sua frustração na equipa e nos companheiros. Está errado e é necessário repensar essa estratégia rapidamente. Ronaldo, como grande jogador que é, não pode viver exclusivamente das exibições individuais e do seu brilho pessoal. Tem que pensar que se inclui numa equipa em que ele é tão valioso como qualquer outro. Não pode ter declarações que o obriguem a realizar desmentidos que mais soam a desculpa do que arrependimento. A perseverança com que se congratula e alcança recordes pessoais nunca, mas nunca pode sobrepor-se à ideia que o futebol é um jogo de equipa e não de individualidades.

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