Todos nós deparamos com idiotas no dia-a-dia. Somos obrigados a gramá-los, que remédio… Os seres destituídos de idiotice acham-se perante os idiotas em diversas circunstâncias: quando vamos para a escola, lá está o idiota na fila de trás na balbúrdia a perturbar um ambiente que se quer são; quando iniciamos a nossa actividade profissional, lá encontramos o colega idiota, cuja única tarefa que patenteia com brilhantismo é mesmo ser idiota; quando vamos em passeios familiares, lá vem o tio ou o primo idiota exibir-se perante uma plateia desinteressada na sua idiotice. É o nosso fado, não há como lhes fugir.

No entanto, há idiotas e idiotas. Há aqueles que forçosamente temos de aturar e depois há outros, os chamados idiotas úteis, que por obra do acaso (ou se calhar não) invadem a nossa pacatez doméstica através desses instrumentos tantas vezes panfletários como são os jornais e a televisão. Há-os com fartura a rabiscar disparates inenarráveis ou a debitar alarvidades sumptuosas com a mesma facilidade com que se vergam perante o querido líder idiota dos pneus e os seus idiotas correligionários.

Embora o meu tom seja desabrido, não vou cometer a deselegância de chamar os idiotas pelos nomes. Sim, é melhor prosseguir com uma postura mais recatada e não acicatar os ânimos por força dos idiotas. É isso, é preferível desligar-me do assunto e falar de outra coisa qualquer. António Carraça é um idiota… Oops, não resisti. Jorge Jesus é também um idiota… Peço imensa desculpa, mas estou a ficar descontrolado. Rui Gomes da Silva é um pau mandado e também ele um idiota… Bem, que situação embaraçosa. Luís Filipe Vieira é a personificação do idiota… Pronto, é impossível resistir à tentação e, já que estou numa maré de incontinência verbal, cá vai: o Rui Santos é o típico idiota que todos os putativos idiotas almejam representar.     

Façamos um apanhado geral das imbecilidades que estes idiotas vociferaram nos últimos dias. Rui Santos, qual pregador idiota a dar sermões idiotas aos idiotas dos peixes, esse mesmo que se gaba de ser o último baluarte do jornalismo independente e isento (talvez por ser um idiota chapado), capaz das análises mais sérias, ao mesclar uma prosa queirosiana com uma erudição foucaultiana, deu asas à imaginação e no espaço que lhe é concedido na SIC Notícias referiu-se desta forma à primeira grande penalidade assinalada a favor do Porto no jogo frente ao Marítimo:      

 

“Mais um lance atípico que não consigo entender”

“Olho para este lance e (…) não acho que seja um movimento natural”

“Não gosto deste futebol, não me revejo neste futebol”   

 

O idiota Rui Santos tem e deve ter, do meu ponto de vista, a liberdade necessária para dizer o que bem entender, desde que justifique as declarações insultuosas que proferiu: em primeiro lugar, ousou, por dá cá aquela palha, pôr em xeque o profissionalismo de um atleta que representa um clube que tem um ódio visceral ao Porto; por outro lado, teve a indecência de lançar a pedra e esconder a mão, ou seja, mandou para o ar a atoarda, insinuou de forma insidiosa e teve a cobardia, digna de um perfeito idiota, de não concretizar aquilo que pensava, escudando-se em expressões como “eu não acho normal” e outras que tais.

Olhando para as expressões que o príncipe dos idiotas brindou o seu público, fervilham desde logo umas ideias para reflexão: mas qual é o jogador que comete grandes penalidades de forma propositada? Apetece a algum jogador prejudicar a sua própria equipa? Seja em lances de mão, empurrões ou carrinhos, a intenção, que eu saiba, é a de afastar a bola da área e não provocar qualquer rombo no casco ao clube que defende. Mas quem sou para pensar assim? O idiota lanzudo é que é douto na matéria! Mais: o idiota não achou estranho o movimento entre o Gaspar e o Cardozo quando a jogada já não prometia nada? Não achou estranho a oferta que o Rui Rêgo concedeu ao Benfica na primeira volta? Não achou estranho os apagões no jogo Braga x Benfica? Porque é que o idiota Rui Santos não teve uma postura draconiana aquando do castigo cirúrgico de 11 dias aplicado a Jorge Jesus? Não acha estranho a não divulgação do conteúdo da misteriosa e profana cassete de Godinho Lopes? Porque é que ele não se indigna com o facto de em dezenas e dezenas de anos de campeonato português o único jogador suspenso por simulação de penalties tenha sido Lisandro Lopez? Onde é que este idiota andava quando o McCarthy foi suspenso dois jogos via sumaríssimo e viu a suspensão ser aumentada para três quando o Porto requereu a anulação/redução da pena? Ele revê-se nisto? Podia gastar mais uns bons milhares de caracteres com perguntas semelhantes, mas não quero impacientar mais o idiota-mor, uma vez que já tem tópicos suficientes para abordar.    

Quanto à trupe de idiotas da estrutura do Benfica, não é nada que me surpreenda. Aliás, há umas semanas, no artigo “A cassete” dei conta da estratégia preconizada por esta nata de idiotas vermelhos ou, se preferirem, de melancias invertidas, vermelhos por fora e verdes por dentro…

Contudo, não deixa de ser curiosa esta reacção encarnada em uníssono contra o fantasma das arbitragens. Na verdade, António Carraça esteve resguardado a temporada toda e vem palrar justamente agora porquê? É fácil, vem em auxílio do presidente idiota que teima em não dar o corpo às balas. Assumir os erros perante os adeptos? Constatar que houve más contratações? Averiguar o que correu mal? Não, claro que não! Assumir responsabilidades não é de homem, é de idiota. Ou melhor, não é só de idiota; é daqueles idiotas mesmo, mesmo idiotas. Expor-me perante os adeptos? Nááá, é mais giro andar a passear pelo Brasil, manietar Rui Gomes da Silva, Jorge Jesus e António Carraça, impingir-lhes um discurso de indignação em torno de arbitragem e, tcharán, estão explicados os insucessos de uma década. E, mais tarde ou mais cedo, o mito da reabilitação económica do clube vai ser desfeito. Esperem só até que os idiotas abandonem a poltrona e verão.

 

Nota 1: Tiro o chapéu a Vítor Pereira. Num gesto de humildade, confessou que as agruras que dirigiu a Jorge Jesus no princípio do ano foram “um momento mau”. Em dois anos, vi Villas-Boas e Vítor Pereira retractarem-se de posições que assumiram e que foram manifestamente desajustadas. Isto também é ser Porto.

 

Nota 2: No dia da liberdade de imprensa, data em que se comemora a liberdade de expressão, o professor Manuel Sérgio foi despedido do cargo que ocupava no Benfica, tal como relatou em boa hora o Domínio de Bola. Este foi o corolário de um chorrilho de situações anedóticas que o blog Mística do Dragão bem relata.  

 

Nota 3: Li uma coisa interessante estes dias no jornal O Jogo. Nos últimos dez anos, o Porto é, dos três grandes, aquele que marcou mais golos. Não era complicado chegar a esta conclusão, mas o facto de o Porto ter sido a equipa que beneficiou de menos grandes penalidades para o conseguir deve deixar um travo de azedume na boca dos idiotas que por aí se pavoneiam.  

 

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