
Escrito por: Cláudio Moreira
Desde que me conheço como adepto do FC Porto que me habituei a um determinado léxico alusivo ao clube: era a raça, a vontade de vencer, o ódio ao Sul, era o correr até à última gota de suor, o ‘até os comemos, carago!’, era a mística, a mística, a mística!
Para além de todas estas características, havia obviamente gente a corporalizá-las, em todos os quadrantes. No dirigismo, o destaque natural vai para Pinto da Costa; no relvado, João Pinto, Vítor Baía, Jorge Costa, André, Paulinho Santos, Domingos, entre outros, formaram uma fornada fenomenal que só deixa boas recordações; José Maria Pedroto e mais recentemente André Villas-Boas foram dois técnicos que aliaram à competência uma paixão pelo clube enquanto exerciam as suas funções; por último, a ala comentarista, em que nomes como Pôncio Monteiro ou Hernâni Gonçalves, através da argúcia, humor espontâneo, simpatia e cavalheirismo, transportaram a tal mística até aos ecrãs de todos os portugueses.
Olhando para o panorama actual, quem permanece ligado ao FC Porto e, consequentemente, a propagar as qualidades que citei? Apenas e só Pinto da Costa, o primeiro e último baluarte que consagrou o clube como o melhor (quero lá saber se é o maior…) de Portugal e um dos melhores do mundo. Daí que aquele portismo que eu conheci se esteja a desvanecer ano após ano, embora a cadência ganhadora se mantenha. No futuro, como será? Continuaremos a ganhar? A hegemonia será perdida? Haverá correlação entre a falta de referências e essa hipotética perda hegemónica? Ninguém sabe…
O que é factual é que vivemos tempos diferentes. E, tal como a história de um país, é preciso deixar respirar alguns anos para podermos formular juízos concretos sobre o passado. Daí que não se possa ainda dizer com exactidão se estamos diferentes para melhor ou para pior.
O portismo que me foi entranhado nas veias (e a outros milhões como eu por esse mundo fora) habituou-me a determinadas características em vários domínios.
Conheci um presidente que colocou os interesses do clube à frente de tudo, que dava o corpo às balas nos momentos maus, que aparecia cirurgicamente nos momentos bons (e foram tantos…), assumia tudo por todos e que soube transformar uma agremiação simpática do Norte do país numa referência mundial; os outros dirigentes vivem na sombra, não lhes conhecemos as feições ou a forma como operam, apenas alguma da competência, casos de Reinaldo Teles, antes, e agora de Antero Henrique.
No tocante aos jogadores, havia o hábito de promover os atletas da cantera que respiravam portismo por tudo o que era poro. Actualmente, os Baías e Jorge Costas, Nunos Espíritos Santos de outrora deram lugar aos Hulks, Falcoes e Danilos, futebolistas jovens pescados lá fora, cheios de potencial e com margem de progressão capaz de os conduzir ao estralo. Forçosamente, perdemos em raça, em sentir o clube – muito embora jogadores como Castro, Lisandro, Derlei ou Lucho emanassem do espírito azul e branco de antigamente –, mas ganhamos em talento bruto e constituímo-nos como um exemplo lapidar no que toca a fazer negócios de compra e venda.
Já no que diz respeito à arte do comentário, vimos partir duas das mais carismáticas figuras do clube, os já mencionados Pôncio Monteiro e Hernâni Gonçalves, ambos com um perfil muito semelhante: eloquentes q.b., muito sarcásticos, à imagem do Presidente, mas com uma cordialidade com os adversários clubísticos à prova de bala; em suma, uns senhores. Hoje, temos uma realidade diferente. Guilherme Aguiar mantém a simpatia destes dois – mais por motivações políticas, quer-me parecer –, mas sem o arcaboiço necessário para lidar com os interlocutores. Manuel Serrão é um digno tasqueiro, não tem aquela ‘classe’ que se exige, mas defende o FC Porto com unhas e dentes e isso tem de ser louvado. Miguel Sousa Tavares é outra voz contundente em defesa do portismo, muito embora perceba tanto de futebol como Luiz Felipe Scolari, que é zero! Depois, sobra Miguel Guedes, que me parece o mais parecido com as duas referências aludidas. Possui um discurso articulado, não se deixa ser pisado pelos adversários e é bastante elegante nas suas intervenções, porém, falta-lhe aquela manha, aquela fibra, aquele humor mordaz que só a idade e a experiência conseguem conferir.
Em suma, vivemos tempos distintos daqueles que aprendemos a amar. O reinador de Pinto da Costa não está longe do fim, ao que se consta, e é ainda uma incógnita aquilo que será o FC Porto desde a sua saída. É também verdade que o clube perdeu muitas referências dentro do campo, mas tenho a certeza de que fora dele estão para o que der e vier. Se este prisma que vivemos hodiernamente descambar, porque não recorrer aos Sérgios Conceições, Cândidos Costas, Baías, Fernandos Coutos desta vida para liderar os destinos do clube? A ver vamos como se processará isto tudo…

