alt

Escrito por: Duarte Pernes

 

Como escreveu, e bem, esta semana o jornalista André Viana, o balanço do regresso de Ricardo Quaresma ao Dragão pode ser visto por dois prismas: o do futebolista e o da equipa. Se nos cingirmos ao primeiro, não restam grandes reticências de que o jogador se reabilitou para o futebol, o que é de louvar. Fisicamente está bem e mesmo podendo não ter o fulgor de outros tempos – já completou trinta primaveras, recorde-se –, a imprevisibilidade e o virtuosismo continuam lá, o que é suficiente para superar as expectativas que, há alguns meses, tinha sobre o seu estado em termos puramente desportivos. Não tenho igualmente dúvidas de que, a seguir a Cristiano Ronaldo, é de longe o melhor extremo português e uma eventual não convocatória para o mundial só não será surpreendente porque o seleccionador nacional se chama Paulo Bento e o atleta alinha pelo FC Porto (contrariedades a mais para quem deseja um lugar entre os vinte e três eleitos).

Porém, se atentarmos ao seu rendimento, quando inserido numa dinâmica colectiva, as conclusões a retirar são diferentes. Os dragões não passaram a exibir-se melhor com a sua chegada e a distância pontual para os seus rivais aumentou exponencialmente. Claro que nem uma coisa nem outra são da sua responsabilidade principal e, é justo referir-se, que alguma coisa foi ganha em termos ofensivos. Mas chegará isso para compensar aquilo que não só não conseguiu ser resolvido como, em certa medida, foi perdido e até agravado?

De facto, falar-se em Quaresma não implica, infelizmente, apenas a exaltação das suas mais do que muitas qualidades técnicas. É também olhar para alguém que, em campo, quer os holofotes todos virados na sua direcção e fora dele, tanto quanto se sabe, está também longe de ter um temperamento aprazível no balneário. Pouco importam as juras de amor eterno ao clube, quando o que se vê na prática é um jogador que se agarra à bola com quantas forças tem, que teimosamente persiste (sem ordem em contrário) em ser o executante de cantos e livres (para os quais já demonstrou não ter a mínima apetência) e que reage mal quando o seu protagonismo é posto em causa. Este é, e sempre foi, o reverso da medalha do Harry Potter – que era suportável no passado porque o contexto colectivo era favorável, mas que se torna difícil de gerir agora, numa equipa que não se consegue verdadeiramente encontrar como tal – e era isto que devia ter sido de antemão ponderado aquando da sua contratação em Janeiro último.

Mais, poderá o FC Porto da próxima época suportar um elemento assim? Se no Verão que se avizinha o dragão reforçar as alas como tudo leva a crer, qual será a reacção de Quaresma a uma presença mais intermitente no onze? E se continuar como titular indiscutível, o seu vedetismo e excesso de individualidade não poderão ser uma pedra na engrenagem para um conjunto que procura renascer? 

É fácil, por outro lado, fazer uma defesa do Mustang assente na desesperante falta de qualidade da concorrência no plantel, só que o caminho não pode ser esse. Quaresma veio a tempo para recuperar os predicados que todos lhe reconheciam, mas jamais ganhará aquilo que nunca teve e que o prejudicou em diversas alturas da sua carreira: maturidade. Enquanto pelas Antas se festejarem os seus malabarismos fechando-se os olhos ao resto, os portistas estarão mais longe de celebrar uma equipa que lhes permita ganhar títulos e reocupar um lugar que tradicionalmente é seu.


Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.