Às vezes dou por mim a pensar que não percebo nada de futebol. Sinto-me inferiorizado quando comentadores da nossa praça esmiúçam a componente teórica até à exaustão, introduzindo expressões como ‘meio-campo híbrido’ ou ‘elemento táctico-posicionalmente desviado’. Enfim, a era da ‘defesa em linha’, da ‘pressão alta’, ou mesmo do já complexo ‘4x4x2 losango’, tem os dias contados.

Hodiernamente, temos à nossa disposição uma vasta gama de vocábulos relacionados com o desporto-rei. Gosto de um em particular: nota artística. Todavia, o termo ganha uma nova aparência quando é expelido pelo autoproclamado Mestre da Táctica, conhecido pela plebe futebolística como Jorge Jesus. Isto porque o seu significado é amplamente deturpado. Da mesma maneira que um modesto adepto não descortina a hibridez no meio-campo da sua equipa, um apoiante do Benfica (e de uma outra equipa qualquer, já agora) é incapaz de denotar um vestígio de nota artística desde há alguns meses. Mas o treinador encarnado insiste nesta terminologia para classificar os desempenhos da sua turma.

Este intróito vem a propósito da mais recente fanfarrice protagonizada pelo autoproclamado Catedrático do Futebol. Quando pensamos que a bazófia de Jorge Jesus amainou, eis que somos presenteados com um chorrilho de alarvidades capazes de coagir o Mimo d’ O Último a Sair a esboçar um sorriso. Nem a experiência da temporada passada serviu de lição. Num ano em que Jorge Jesus prometeu magia, foi o ilusionista Villas-Boas que tirou os coelhos da cartola. Quatro, ao todo. Um por cada título conquistado. Numa só época, Villas-Boas arrecadou mais títulos do que Jorge Jesus em mais de vinte anos de carreira. Não há Luís de Matos que iluda o pragmatismo.

Ora, durante esta semana, o autoproclamado Paula Rego do Futebol – esta é a minha favorita – espalhou a ideia de que o Benfica fez um “início de época brilhante”. Não foi este mesmo Mosqueteiro da Bola que defendeu a tese de que o que importa é como acaba e não como começa? Pois, para além de esse brilhantismo ser uma inverdade, Jorge Jesus não enjeitou inverter os padrões por que se norteou na época transacta. Isto, sim, é nota artística!

E aquele lance do Nolito no jogo que ditou o afastamento do plantel cintilante da Taça de Portugal? Teve nota artística bem vincada! De uma coisa tenho a certeza: quando acabarem os trajectos futebolísticos, alguns profissionais do Benfica têm já uma carreira assegurada como mergulhadores. Outros como Javi Garcia, Luisão ou Cardozo podem sempre abrir uma escola de Jiu-jitsu – é sucesso garantido. Com nota artística, claro!

Se a jactância de Jorge Jesus já é por si só irrisória, o que dizer daqueles que a fomentam? É o cúmulo do ridículo, senhores. Se eu pensava que o António-Pedro Vasconcelos tinha batido no fundo quando afirmou (e reiterou) que o Paladino do Futebol era melhor do que o Mourinho, Rui Santos provou que o cretinómetro pode atingir proporções incomensuráveis. O portador da carapinha mais cobiçada de Portugal, que em termos de estatuto deve ser um Jubilado do Futebol, asseverou que Jorge Jesus podia equiparar e até mesmo superar José Mourinho se tivesse uma cultura geral mais vasta. Isto merece outra atitude que não o repúdio? Merece: repúdio com nota artística!

Nota 1: Primeiro, era a equipa invicta na Europa; agora, é a par do Barcelona e Real Madrid uma das equipas invictas da Liga dos Campeões; Quando o Benfica for eliminado da prova, será considerada a ex-equipa invicta a jogar com nota artística. Tendo em conta que desde 1993 que a equipa reluzente não passa em primeiro lugar na fase de grupos da prova milionária, não percebo esta sublimação de alguma comunicação social.

Nota 2: Vou esperar pela resposta da equipa do F.C.Porto frente ao Beira-Mar para fazer um balanço e retomar o grito de revolta do artigo que escrevi na semana passada.

Nota 3: Ainda estamos à espera da revelação do conteúdo da cassete que Godinho Lopes diz ter em sua posse. A sorte é que Jacinto Paixão não aparece nas gravações, senão…

 

 

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