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Escrito por: Cláudio Moreira

 

Não consigo dar uma resposta definitiva a esta questão. Isto porque me parece que ambas as possibilidades me parecem verdadeiras. Estou em crer que Julen Lopetegui não é (ainda) um técnico de créditos firmados, da mesma forma que acho que vai continuar, no mínimo, na próxima temporada, independentemente de no museu portista não vier a constar nenhum título alusivo a esta época.

Em primeiro lugar, foquemo-nos no primeiro tópico, respeitante a Lopetegui como sendo ainda um projecto. Que o é, de facto. Não é com toda a certeza um produto acabado. Mal estávamos se assim fosse. Aliás, vejo o actual treinador como um jovem jogador cheio de potencial que vem integrar o plantel: conhecido na sua zona, mas com parco reconhecimento global, com enorme vontade de triunfar, com talento visível, mas sem a adaptação necessária para mostrar tudo o que vale. Tenho, portanto, a esperança de que Lopetegui seja uma espécie de Hulk (que teve uma primeira época titubeante) em formato treinador, ao invés de um Iturbe, por exemplo, que andou pelas ruas da amargura sem comprovar em campo as expectativas que trazia da Argentina.

Com efeito, Juen Lopetegui ainda não se entrosou devidamente com o futebol no geral. Logo, não seria expectável que se ambientasse de imediato a Portugal e ao FC Porto. Tem ainda pouca experiência acumulada – a que tem, conseguiu-a nas selecções jovens de Espanha – e isso foi perfeitamente constatável nos primeiros meses. A ligeireza com que defrontou Boavista e Sporting, a título de exemplo, ou as constantes mutações jogo após jogo revelaram um treinador com uma certa falta de noção.

Felizmente, tem sabido aprender com os erros. Tem melhorado nas suas decisões, estabilizou o XI e passou com distinção um ciclo terrível. Porém, mantém um defeito que a meu ver tem de ser rapidamente debelado: a falta de alternativas ao processo de jogo. Quer a equipa esteja a ganhar, perder ou empatar, a solução do FC Porto é sempre a mesma. Não há um plano B quando as coisas não estão a sair bem. Se por um lado, há uma forte identidade criada – e isso é de louvar -, por outro, os adversários sabem de antemão que o sistema do FC Porto não se alterará mediante o desenrolar da partida. A este propósito, basta dizer que não tenho memória de o FC Porto ter jogado com dois avançados; algumas vezes, Adrián Lopez e Jackson estavam juntos no ataque, mas o espanhol invariavelmente derivava para uma das alas. No dia em que o FC Porto criar um maior número de situações imprevisíveis, estou certo de que o rumo será mais duradouro, ainda que isso pareça antagónico.

No que concerne ao outro tópico, o facto de ser um treinador de projecto, isso parece-me indesmentível. E para consubstanciar esta ideia bastaria recordar as aparições públicas de Pinto da Costa – em várias ocasiões, o presidente fez questão de enfatizar que Lopetegui está para durar, que a sua contratação foi um passo determinante para uma revolução com o legado de Paulo Fonseca. Mas há mais sinais reveladores de que o basco estará pelo Dragão por muito mais tempo.

Um dos pontos mais salientes é o espírito portista que o técnico já emana. A forma exuberante como festeja alguns golos e sobretudo a maneira como encara as conferências de imprensa são dois aspectos que contribuem para Lopetegui cair no goto dos adeptos. Nem Villas-Boas, o maior exemplo do tipo adepto-treinador, conseguiu ser tão profícuo nas mensagens a partilhar com os seus destinatários. E Lopetegui faz isso muito bem. E fá-lo de forma civilizada, com uma classe e cortesia incomuns.

Depois, face aos constrangimentos económicos que estão cada vez mais na ordem do dia, Lopetegui parece se rum treinador habilitado para fintar estas questões. Falo, claro está, na aposta na formação. Que outro técnico teria a coragem de lançar de miúdo de 17 anos às feras? Poucos, muito poucos, tenho a certeza. Para além de Rúben Neves, o caso mais gritante, Lopetegui já promoveu Ivo Rodrigues e Gonçalo Paciência, dois nomes que começaram a temporada na equipa B. E estou seguro de que haverá mais meninos no futuro a brotar das camadas jovens. Não falta experiência a Lopetegui para detectá-los e aperfeiçoar as suas qualidades. Do que tenho visto, destaco alguns nomes que os adeptos poderão ouvir falar daqui a poucos anos: Rui Pedro, Moreto Cassamá, Raúl Gudiño, Rafa, Romário Baró, Miguel Magalhães ou Afonso Sousa (neto de António Sousa e filho de Ricardo Sousa, ambos com passagens pelo FC Porto). Os 4 primeiros, se dependesse de mim, fariam a próxima pré-temporada com a equipa principal. Os outros são ainda petizes para estas andanças.

Além destes aspectos, há um outro evidente: o controlo quase absoluto no departamento das transferências. Lopetegui trouxe a sua armada espanhola para o clube, o que reforça a confiança da estrutura no treinador.

Em suma, e respondendo à questão enunciada no título, entendo que o namoro entre Lopetegui e o FC Porto está para durar. Será um homem que estará ao leme do clube nos próximos tempos e que vai melhorar os aspectos menos bons que coleccionou neste primeiro ano. Além dos aspectos técnicos, parece-me um homem sério, convicto, inteligente e perspicaz, qualidades que o farão ainda melhor treinador do que já é. Assim o espero para bem do grande FC Porto. Pois para o ano não haverá tanta tolerância, aconteça o que acontecer até Maio deste ano.


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