A vida no futebol é efémera? Uma questão filosófica que cada vez mais, principalmente no mundo em que vivemos, possui uma resposta fácil. Hoje no futebol tudo é efémero. Já são muito pouco aqueles que conseguem construir uma carreira longa e duradoura num só clube. Hoje conta-se pelos dedos das mãos aquele tipo de jogador que defende apenas um emblema no decorrer de toda a sua carreira e, ao mesmo tempo, é capaz de se tornar um símbolo ou ídolo de uma qualquer organização. Hoje, por minha profunda tristeza, o respeito e a reputação deram lugar à necessidade de resultados imediatos por falta de paciência. Hoje, os donos dos clubes não querem saber se falamos de um Giggs ou de um Maldini. Ficas velho e saltas para fora. Não interessa o que o teu coração defendeu durante 20 de anos de carreira, nem se há uma grande falange de adeptos que te idolatra. Interessa apenas e só se ainda és uma mais-valia económica ou se possuis um rendimento desportivo alto, sendo que os padrões que definem esse rendimento são altamente duvidosos…

Sou um pouco lamechas, é verdade, e até podem dizer que tudo o que escrevi soa um pouco àquela expressão futebolística de “mais um lírico do futebol”, mas como escrevo o que sinto, sem atenção a olhares e ouvidos alheios, não consegui ficar absorto em relação a uma notícia que li esta semana. Quando navegava por várias páginas de jornais desportivos, esbarrei numa notícia que dizia: “Lenda enviada para casa horas antes do jogo”. Eu continuei a ler e percebi que esse jogador era Il Bimbo d’Oro, Il Re di Roma e o Il Gladiatore. Espanto meu, percebi que Franscesco Totti tinha sido “encostado”. Um dos meus ídolos de juventude, idolatrado na capital italiana, sentado na bancada do Olímpico de Roma não é normal. Para vos relembrar, Francesco Totti tem pela AS Roma 749 jogos e 300 golos – que fazem dele o melhor marcador da história do clube –, bem como a braçadeira de capitão no braço. O meu espanto é mais do que legítimo.

Como se estes números não fossem suficientes, fui averiguar quando começou a carreira do italiano. Percebi que cedo esta lenda italiana começou a chamar a atenção dos olheiros de grandes clubes italianos. O primeiro a tentar a sua contratação foi o AC Milan. Os seus pais ponderaram a proposta, mas acharam que o muito dinheiro oferecido não era o suficiente para retirar o pequeno Francesco de Roma. Deixar o pequeno prodígio na capital era muito mais valioso do que qualquer cheque cheio de zeros. Seguiu-se a Lázio, que esteve muito perto de conseguir a sua contratação, mas o seu coração parecia já ter destino. Quando este já praticamente tinha tudo acordado com o clube azul-celeste de Roma, apareceu um diretor do futebol de formação Gildo Giannini, pai de Giuseppi Giannini, ídolo de Totti, que o conseguiu convencer a juntar-se à AS Roma. Desde novo que mostrou a sua apetência futebolística, mas com a sua idade a aumentar o seu carácter aumentou também. Estreou-se aos 16 anos, em 1993, diante do Brescia, jogando um punhado de minutos. Apesar da tenra idade, continuou-se a afirmar até que em 1999 herda a braçadeira de capitão do mítico Aldair. El Pluto identificou Il Gladiatore como futuro líder do ‘Coliseu’ e decidiu dar o título de capitão ao italiano. Ainda hoje existe uma relação de ternura entre ambos, pois o brasileiro ainda apelida o italiano de “meu Totti“, num sinal de reconhecimento pela faceta humana e de liderança inata de Totti.

Daí até hoje, tudo o que aconteceu faz parte da história. Totti conquistou diversos títulos individuais, mas principalmente conta com 1 título da Seria A, 3 Taças de Itália, 2 Supertaças, 1 título de campeão do Europeu sub-21 e 1 título de Campeão do Mundo em 2006.

Lendas como Francesco Totti são cada vez mais raras. A minha indignação é para com aqueles que teimam em não respeitar pessoas que deram toda a sua vida e alma a uma instituição. Há umas semanas, inquiriram o italiano se ele esteve perto de assinar pelo Real Madrid, ao que este respondeu: “É verdade, estive bem perto do Real, queria uma grande equipa para vencer, e, naqueles tempos, os diretores da Roma não me ofereciam o que eu queria. Eventualmente, o meu coração pediu para que eu ficasse. Eu não me arrependo nem um pouco da minha decisão. Certamente teria mais hipóteses, mas repito: fiz o que preferi. O meu único arrependimento é não ter vencido mais dois títulos italianos”.

Poderia comentar, mas quem demonstra esta paixão certamente que merece um lugar de respeito em qualquer instituição do mundo do futebol, imune a qualquer tipo de elogio ou crítica. Spaletti certamente que tem de controlar o seu plantel e mostrar pulso forte, mas eu, um simples adepto de futebol, espero que este senhor saiba respeitar melhor a herança que lhe caiu nas mãos pela segunda vez. Espero que ele seja capaz de ver as lágrimas do eterno capitão romano quando o Olímpico cantou o seu nome no último domingo. Aliás, anseio que ele entenda esta homenagem e que respeite a vontade dos adeptos, pois sem o amor destes tiffosi e sem pessoas como Totti não existem instituições como a AS Roma e, acima de tudo, não existia o jogo de todos nós, a nossa maior exaltação, a nossa maior paixão, o nosso futebol.

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