Escrito por: Duarte Pernes

No plano desportivo, os encarnados confirmaram a vitória no campeonato. Foi uma glória algo cinzenta, pois as águias não conseguiram sequer ganhar na jornada que acabou por ditar o campeão. No fundo, ficou feito aí o resumo de toda uma época: um Benfica pálido e nada convincente, desprovido de matéria-prima que lhe garantisse uma boa campanha na Champions ou que repetisse a afirmação doméstica da época passada, a levar a melhor sobre um Porto que, indiscutivelmente, fracassou ao não conquistar nenhum título.

Não faltam razões que expliquem a debacle portista e elas vão desde arbitragens que empurraram (empurrar não é exagerado, falar de colo é que é pouco para o que se viu) claramente o seu arqui-rival, a erros próprios de jogadores, treinador e estrutura dirigente. Tudo isto redundou nos três pontos a menos para o primeiro classificado, apesar do menor número de derrotas sofridas, da maior série de encontros sem perder e da melhor segunda volta efectuada. Mas para analisar em pormenor o que falhou no FCP, haverá tempo e espaço numa futura crónica.

Fora das quatro linhas, como escreveu na terça-feira Miguel Sousa Tavares, os benfiquistas confirmaram o epíteto de «maiores desordeiros do país». Um momento que deveria ser de alegria e regozijo para os apoiantes vermelhos transformou-se, rapidamente, numa série de demonstrações de vandalismo e destruição, remetendo para segundo plano os festejos daqueles (porque também os houve, naturalmente) que assumiram um comportamento marcado pelo civismo e pela correcção. Primeiro em Guimarães (com o saque a um armazém e a devastação do sector visitante do estádio do Vitória) e depois em Lisboa (com o motim no Marquês de Pombal), o que se assistiu foi a um dos momentos mais feios da história do futebol em Portugal envolvendo adeptos – o mais negro terá sido, porventura, o homicídio do sportinguista Rui Mendes em pleno Jamor.

Nesta altura, as leituras a extrair divergem entre os que apontam os incidentes como um reflexo da sociedade actual e, numa visão mais circunscrita e concreta (mas nem por isso justa), aqueles que opinam que o sucedido serve para ilustrar o reverso da medalha dos adeptos de futebol. Só que o que se passou não é um problema que se deva imputar nem aos portugueses em geral, nem ao comum adepto. Os amantes do desporto-rei – sejam eles portistas, sportinguistas, vitorianos, braguistas, etc – não têm de ser colocados, por uma questão da mais elementar justiça, no mesmo saco daqueles que perpetraram os tais distúrbios. Na cidade do Porto, por exemplo, já se realizaram numerosas festas dos dragões e nada de parecido ocorreu. Mais do que isso, à mesma hora em que, para os lados da capital, se presenciava a barbárie, num ambiente que devia ser propenso à alegria, nas Antas cerca de três centenas de ultras portistas esperavam a equipa, num contexto de desalento e frustração, sem que mesmo assim tenha havido registo de nada de lastimável.

Equivale tudo isto a concluir que os primeiros a terem de rever a sua forma de estar são precisamente os simpatizantes do clube lisboeta. Os benfiquistas não são, mais uma vez, todos culpados pelas acções grosseiras dos seus correligionários clubistas, mas aqueles que cometeram as referidas acções foram apenas e só benfiquistas, pelo que aqui não há espaço para extrapolações (embora não falte quem, por uma conveniência extrema, as tenha feito).

 

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