Domínio de Bola entrevistou Tarantini, capitão do Rio Ave. Fizemos uma viagem com o médio centro desde o início da sua carreira sénior até aos dias de hoje em que, para além do futebol, se desdobra na sua missão de aconselhamento àqueles que fazem ou querem fazer do seu mundo o futebol.

– Conciliou os estudos com o futebol quando era mais jovem e agora concilia a vida futebolística com este novo projecto. Qual das situações é mais complicada de lidar?

R: É importante referir que depois de me tornar profissional o futebol sempre esteve em primeiro lugar, pois é a minha forma de subsistência. Tudo o que faço na minha vida pessoal, faço-o porque acredito e sinto que não tem implicações negativas para a minha profissão. Tal como a Licenciatura ou o Mestrado, este projeto apresenta os mesmos contornos, uso o meu tempo para fazer o que realmente quero e acho importante. Mas se tiver de escolher uma, creio que conciliar a Licenciatura com o Futebol foi a mais difícil, pois era necessário estar presente mais vezes fisicamente para dar seguimento às coisas.

tarantini_defesamestrado– Já é possível fazer um balanço sobre este projecto? Quais os próximos passos que tem em mente para o desenvolver?

R: É natural que no início nunca se saiba exatamente a projeção que um projeto deste género possa ter, daí que quando o criei estabeleci numa primeira fase três objetivos, tendo em conta o caminho que pretendia percorrer:

  • dar continuidade, com mais acesso, qualidade, informação e periodicidade a palestras educativas em clubes, universidades, escolas e instituições interessadas na temática;
  • conseguir quantificar o problema em Portugal, através da realização de diversos estudos;
  • e encontrar financiamento – através deparceiros comerciais e institucionais – que possibilite a criação e divulgação de testemunhos inspiradores nas diferentes modalidades.

Desde a apresentação do projeto, tenho dado passos importantes para atingir estas metas e ao mesmo tempo ir estabelecendo novas para que a ideia cresça e não desapareça.

– Como tem sentido o apoio (ou falta dele) dos seus pares em relação à sua causa?

R: A reação foi boa, até porque toda a gente percebe que isto é um verdadeiro problema. Mas uma coisa é achar que eles são sensíveis à questão, outra coisa é se eles fazem algo para mudar. E de um modo geral eles continuam a ter uma atitude desinteressada; só quando acontecer algo é que vão compreender de verdade que já poderiam ter feito alguma coisa antes.

– Tem sido bastante pró-activo nas suas actividades extrafutebol. Sente-se um exemplo a ser seguido fora dos relvados?

R: Toda a gente cria um caminho para a sua vida, eu acredito naquele que faço. Não quero que as pessoas façam porque o Tarantini é um exemplo, apenas gostaria que as pessoas pensassem e agissem da melhor forma para elas, de acordo com os seus sonhos, vontades, interesses. Mais do que querer ser um exemplo, eu quero deixar uma marca no futebol, em que construir uma vida faz parte do sonho.


– Enverga a braçadeira de capitão do Rio Ave há cinco anos. Como encara essa responsabilidade?

R: Acredito que para ser um verdadeiro capitão tenha de sentir o clube, o seu passado, a sua ambição, as pessoas, os objetivos. Eu não nasci em Vila do Conde, mas hoje sinto mais do que quando cá cheguei. O tempo, as pessoas, as experiências aproximaram-me e tornaram-me um deles. Para mim é importante que as pessoas me olhem pela competência em lidar, compreender e resolver. Nós representamos algo maior, algo que perdurará na história do clube, alguém que pensa e cria, sempre em prol do melhor para o clube.

– Nos nove anos que leva de Rio Ave, trabalhou com seis técnicos, entre eles João Eusébio, Carlos Brito, Nuno Espírito Santo e Pedro Martins. Que características destaca em cada um deles?

R: Trabalhei pouco tempo com o João Eusébio, mas, mais do que destacar algo do trabalho dele, foi por ele que cheguei à Primeira Liga, e para isso é preciso também que haja alguém que acredite no nosso trabalho e ele acreditou, por isso estou-lhe eternamente grato. Com Carlos Brito trabalhei cerca de 3 anos e meio e foi com ele que me apercebi que quando não se é um talento puro há que rapidamente perceber o que um treinador pretende e me adaptar. Um Homem que compreendia o que era o clube, a sua tranquilidade e o discurso positivista. O Nuno Espírito Santo representa uma nova era no Rio Ave, trouxe método científico aliado a uma experiência ganhadora, tendo em conta os clubes, treinadores e pessoas onde e com quem trabalhou. No Pedro Martins destaco o futebol ofensivo que tanto aprecia. Um treinador que pela ideia de jogo realça a criatividade dos jogadores.

 – Nesta quase década ao serviço da turma vila-condense teve propostas para sair para um clube com outras ambições e que lhe pudesse dar outra estabilidade financeira?

R: Tive algumas propostas para sair, mas nunca tive uma que fosse ao mesmo tempo boa desportiva e financeiramente.

– Deu-se a conhecer na Primeira Liga, ao serviço do clube de Vila do Conde, contra o Benfica. Qual foi a sensação de se estrear diante de um chamado ‘grande’?

R: Foi a melhor estreia possível. É realizar o sonho de menino.

 – O seu contrato termina em 2018, altura em que estará perto dos 35 anos. Já tem perspectivas do que vai fazer daí em diante?

R: Se hoje fosse Maio de 2018 iria continuar a jogar. Deixarei de jogar no dia que não me sentir mais útil para a equipa ou clube. Tenho em mente algumas coisas. Não sei a 100% o que irei fazer, mas sei que estou sempre a pensar e a preparar-me mais e melhor para essas alturas mais criticas da nossa vida.

 – Quando decidir colocar um ponto final na sua carreira de futebolista, como gostaria de ficar conhecido?

R: Irei ser reconhecido por pertencer, até hoje, à melhor fase da história do Rio Ave e pela mensagem que tento transmitir a todos os jovens de que para lá chegar é preciso muito sacrifício, trabalho e que há uma vida que não pode ser refém de um sonho.

 – Qual é a sua opinião sobre as chamadas ‘reformas douradas’ que muitos jogadores abraçam, por exemplo, nos Estados Unidos e na China? Vê-se a participar numa aventura desse calibre?

R: Não acredito em coisas fáceis. Nem tudo o que vendem pode ser verdade. Existem jogadores a ir e a regressar rápido de mais, algo está errado. Só irei abraçar uma coisa desse género se me sentir confortável. O dinheiro é muito importante, mas há coisas mais importantes.

– É jogador profissional há 15 anos. Estreou-se pelo Sporting da Covilhã na época 2001/2002 sob as ordens do técnico João Cavaleiro. Como recorda os tempos de transição para o futebol sénior?

Estreei-me ainda júnior ao serviço dos seniores do SCC com um golo frente ao Beneditense. É o momento mais crítico na carreira de um jogador. No meu caso correu muito bem, mas é preciso mais uma vez que alguém veja algo em nós. João Cavaleiro viu.

 – Joga em todas as posições do meio-campo, com mais frequência como box-to-box. O miolo foi sempre o seu habitat natural?

R: Quando era mais novo gostava de jogar mais à frente porque gostava de estar perto das zonas de decisão, mas quando me tornei profissional rapidamente me apercebi que a minha posição era a médio, onde além de poder aparecer para fazer golo também tinha competências para o equilíbrio da equipa.

 – Pode parecer estranho pela posição que normalmente ocupa em campo, mas tem mais golos (46) do que assistências (27) na sua carreira. Gosta mais de finalizar do que dar a marcar?

R: Sim, adoro fazer golo. Atrevo-me a dizer que normalmente por jogo tenho sempre em média um ou duas oportunidades de fazer golo. Se voltasse atrás teria perdido mais tempo em certos aspetos individuais.

 – Tem um ‘amargo de boca’ por nunca ter sido chamado à selecção nacional?

R: Fica um amargo porque considero que em 2014 fizemos uma temporada estrondosa. Se há altura que nós, jogadores, temos aquela sensação que poderemos ser chamados, aquele foi o momento.

 – Para além de uma internacionalização por Portugal, o que lhe falta granjear como profissional?

R: A jogar a este nível, ganhar um título pelo Rio Ave.


Perguntas rápidas:

Melhor jogador de sempre: Que vi jogar – Cristiano Ronaldo

Melhor jogador da actualidade: Cristiano Ronaldo

Melhor equipa que viu jogar: Barcelona de Guardiola

Melhor treinador da atualidade: Que visualize o trabalho nos jogos – Jorge Jesus

Jogador que imitava quando era miúdo: João Vieira Pinto

Golo mais marcante da carreira: O 2.º golo ao Porto no 2-2 em Vila do Conde (2012/2013)

Melhor momento no futebol: Entrada no Jamor

Pior momento no futebol: A derrota

Jogador mais engraçado com quem partilhou o balneário: Ukra

‘Hobbies’ extrafutebol: Cinema

 

 

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