DomíniodeBola entrevistou o avançado português Hugo Vieira, atual melhor marcador do campeonato da Sérvia ao serviço do Estrela Vermelha.

  1. – Como tem corrido a sua adaptação à Sérvia, depois de ter tido também uma passagem pelo futebol russo?

R: As coisas estão a correr muito bem! Arrisco-me a dizer que melhor seria difícil. Ambientei-me muito rápido à cidade, à comida e às pessoas. Não é normal, mas, como a minha mãe diz, tenho uma boa boca e ambiento-me bem a tudo.

  1. – O que o fez ingressar no Estrela Vermelha?

R: A vontade do treinador foi fundamental! Mas o grande nome que o clube tem e os jogadores que vende para grandes nomes da Europa também ajudaram na decisão! E a minha promessa de ser campeão.

  1. – A sua equipa lidera o campeonato com 25 pontos de distância para o segundo classificado. Para quem não conhece a realidade do futebol sérvio, como se explica um desnivelamento pontual tão acentuado?

R: Temos uma equipa fantástica, com um excelente treinador e, sobretudo, um grande homem! Normalmente é decidido até às últimas jornadas, mas este ano estamos a fazer história e a bater todos os recordes.

  1. – Fale-nos um pouco da rivalidade com o Partizan de Belgrado. É fácil andar na rua ou já teve abordagens desagradáveis por parte de adeptos rivais?

R: É uma rivalidade muito grande, os meus colegas às vezes têm problemas. Mas até nisso me sinto privilegiado. Por incrível que pareça, os adeptos deles, na maioria, gostam de mim e respeitam-me muito, tanto pela pessoa que sou, como pela história de vida. Fui o único jogador da história a pedir desculpa ao rival. No dérbi, festejei o meu primeiro golo junto aos adeptos deles, mas eu pensava que eram nossos! E no flash intreview pedi imensa desculpa. Eles ficaram rendidos e a respeitar-me muito. Muitos deles inclusivamente votaram em mim para melhor jogador de 2015.

  1. – É possível comparar-se um jogo entre o Estrela Vermelha e o Partizan a um FC Porto vs Benfica ou a intensidade é ainda maior?

R: Não, não tem nada que ver. Eles vivem o futebol de uma forma impressionante! Somos [os portugueses] muito tranquilos comparado com eles, é impressionante este clássico! Não é por acaso que é considerado o melhor dérbi do mundo.

  1. – Foi até há pouco tempo o jogador português com melhor média de golos em termos de campeonato. Tem ainda esperança que Fernando Santos lhe dê uma oportunidade e o chame à seleção nacional, nem que seja a longo prazo?

R: Não vou esconder que gostava de jogar pelo nosso país. Mas isso não depende de mim. Quero continuar assim, o resto não deve ser perguntado a mim.

  1. – Todos tivemos conhecimento do episódio que atormentou a sua vida pessoal. De que forma o influenciou para chegar ao patamar futebolístico em que se encontra?

R: Toda a gente sabe a minha história de vida, mas quem me conhece sabe que não é possível jogar quando temos a pessoa que mais amamos numa cama a sofrer. Eu não queria jogar. Fazia porque ela me pedia. Como posso jogar com a minha vida no hospital de cateter no pescoço e com tratamentos horríveis, em que a única motivação dela era eu? Ela era e continua a ser a minha razão de lutar. Vou vencer tudo por ela e para ela, nem que tenha que morrer em campo!

  1. – Com uma prestação tão boa na presente temporada, já lhe surgiram propostas interessantes para mudar de clube?

R: Sim, felizmente. As coisas surgem naturalmente e com esta época fantástica melhor. Tive várias propostas, mas uma vinda da China foi a única que me fez pensar mais a sério – num ano ia ganhar mais do que ganhei até agora na minha vida toda. Foi difícil dizer que não porque quero a minha família bem para sempre com tudo a que têm direito, mas mais uma vez prevaleceram os valores, aquilo que realmente conta, que é o que o dinheiro não pode comprar. Eu prometi à Edina que ia ser campeão. Que tipo de homem seria eu se trocasse a promessa que fiz ao amor da minha vida por dinheiro? Não consigo. Não faz parte de mim. Quem sabe, no final da época surja algo melhor…

  1. – No curto/médio prazo, que ambições é que tem?

R: Depois do que aconteceu, todos os meus sonhos morreram no dia 24 de Janeiro de 2015 junto com a Edina. Porque sem ela as coisas deixaram de fazer sentido, porque sem ela não faz mais sentido. Por isso, eu quero viver o hoje, não vale a pena fazer projectos para amanhã porque, na verdade, não sabemos se chegamos lá. Quero aproveitar o simples facto de ter saúde. Sou um privilegiado por me conseguir levantar pela manhã. Pouca gente pensa nisto, mas é a grande verdade. Eu só quero ter saúde, ajudar toda a gente que conseguir e ser campeão.

  1. – O que é que faltou para que as suas passagens pelo Benfica e pelo Braga fossem mais bem-sucedidas?

R: No Benfica, talvez maturidade. Queria jogar e pedi para sair. No Braga, não tinha vida para ser profissional, a minha cabeça estava longe do futebol! Praticamente vivia no IPO.

  1. – Chegou a trabalhar com Jorge Jesus diretamente. Que opinião guarda do atual treinador do Sporting?

R: Bom treinador com bons métodos.

  1. – Que avaliação faz desta edição da liga portuguesa até ao momento? Quem considera ser o maior candidato ao título?

R: Ainda falta muito, tudo pode acontecer. Eu acho muito sinceramente que vai ser uma luta a 3 até ao final.

  1. – Gostaria de regressar ao futebol português? Se sim, que clube gostaria de representar?

R: No futebol nunca se sabe. Gostava de voltar a jogar no meu país, mas sei que será difícil. Vamos esperar para ver.

  1. – Tem algum sonho, a nível profissional, que ainda não conseguiu concretizar?

R: Depois do que me aconteceu, vivo o hoje, como já referi anteriormente. Ser campeão é o meu maior objectivo.

  1. – Quais são os seus ídolos no futebol? Que jogadores admirava quando era pequeno, a ponto de tentar imitar agora enquanto sénior?

R: Ronaldinho Gaúcho sempre foi o meu jogador favorito desde miúdo. No entanto, qualquer jogador admira Cristiano Ronaldo e Messi, por razões óbvias.

  1. – Qual foi o treinador que teve e o jogador com quem partilhou o balneário que mais o marcaram?

R: Treinador, este [n.d.r: Miodrag Bozovic]. Sem dúvida o melhor que já tive! O jogador foi o Custódio. Identifico-me muito com ele, é pessoa de bem, correcta. Um líder.

  1. – Como imagina a sua vida depois de pendurar as chuteiras?

R: Como já disse, só penso no hoje. Quero desfrutar do hoje. Depois logo se vê.

O DomíniodeBola agradece a disponibilidade e faz votos para que o sucesso continue a fazer parte da carreira de Hugo Vieira.

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