O Domínio de Bola entrevistou Duarte Gomes, antigo árbitro internacional que abandonou a sua carreira de arbitragem, no início deste ano, devido a limitações físicas.

Na sua infância teve o sonho de ser árbitro ou nunca tinha pensado muito nisso?

R: Não, nunca foi uma ideia que me ocorresse. Joguei futebol algum tempo, sempre gostei de futebol na perspetiva de jogar ou de ser adepto. A ida para a arbitragem foi uma casualidade e nada teve que ver com um sonho de infância.

Devido a condições físicas decidiu abandonar a arbitragem. Caso não tivesse existido esse impedimento continuaria a exercer a função?

R: Sim, sim. Isso não foi um impedimento súbito, isso foi um impedimento acumulado ao longo dos anos. Eu fui operado 4 vezes depois de ser árbitro de primeira categoria. Portanto eu andei bastante tempo a fazer recuperações para tentar estar ao meu melhor nível, só que houve uma altura em que as recidivas, as dores e as inflamações eram tantas que estar a arbitrar um jogo passou a ser mais um sacrifício físico do que propriamente um prazer. E sabe que se nesta carreira nós não tivermos a lucidez e a concentração total e houver algo que nos retire a tranquilidade, como por exemplo uma lesão, nós nunca teremos o rendimento que o futebol precisa e eu achei que estaria a prestar um mau serviço ao futebol e à arbitragem se continuasse em condições que não eram as melhores.

Em toda a sua carreira como árbitro, qual foi o jogo que tenha considerado o mais difícil de arbitrar?

R: Eu arbitrei mais de mil jogos e só cheguei à primeira divisão depois de seis épocas consecutivas a arbitrar muitas centenas de jogos distritais e nacionais de outros escalões e até de escalões jovens, portanto, houve muitos jogos difíceis, não necessariamente aqueles que as pessoas consideram os mais mediáticos porque são de primeira divisão. Portanto, eu para me lembrar de um, teria de me lembrar de cinquenta ou cem. mas também me lembrava de outros cinquenta ou cem que correram muito bem. Logo, fazer uma escolha agora seria muito injusto.

O que acha do video-árbitro? É da opinião que essa tecnologia já deveria existir há mais tempo?

R: Sim, mas ela existirá quando tiver que existir. Obviamente que nós achamos sempre que qualquer tecnologia, essa ou outra, que tem por benefício ajudar a tomar decisões que são muito difíceis de tomar em campo, é sempre bem-vinda. Depois há um conjunto de processos mais burocráticos que tem que ver com as autorizações da FIFA, com a implementação do país, com custos, com recursos logísticos e que infelizmente muitas das iniciativas acabam por ficar aí presas. De qualquer forma, em relação concretamente ao video-árbitro é uma realidade já em vigor, está em período de testes autorizado pela FIFA e em Portugal, na Federação e na Liga comprometeu-se a testar isto nos próximos dois anos, e estou em crer que será uma realidade a partir de 2018.

Na sua opinião, porque é que acha que um erro de arbitragem é muito mais criticado que um erro de um jogador?

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R: Porque a cultura desportiva das pessoas em Portugal é fraca. Como as pessoas estão educadas a aceitar os seus próprios erros e os erros daqueles cujas paixões entendem, mas não estão formatadas para aceitar o erro de um outro agente que terá tantas ou mais dificuldades do que os jogadores em campo, é uma questão apenas cultural e que se terá de trabalhar para as gerações futuras. Para esta geração não porque já está, obviamente, formatada no sentido de criticar um erro que muitas vezes acontece pela enorme dificuldade de análise a um lance, mas, se calhar, se nós andarmos agora mais perto das escolas dos jogadores e dos jovens nas escolas primárias talvez consigamos com que eles percebam que o futebol é um desporto em que todos acertam e erram e que isso não pressupõe corrupção nem suspeição.

Já alguma vez pensou em assumir o cargo de presidente do Conselho de Arbitragem?

R: Não, nunca.

Criou algumas amizades no futebol, com treinadores ou até jogadores, cujo contacto ainda se mantém?

R: Muitas, e agora o contacto está mais próximo porque eu tive 19 anos na primeira liga e, como compreende, nós repetimos muitos jogadores que depois até se tornam treinadores e é normal que tenham ficado algumas amizades, muitas delas grandes, com muito respeito. Enquanto estávamos todos no ativo havia algum cuidado, até por uma questão de imagem pública em não haver uma amizade muito próxima, apenas uma relação institucional. No entanto, agora que eu, felizmente, já não tenho nada oficialmente ligado ao futebol estou muito à vontade para ser amigo dos meus amigos e manter essa ligação que tive durante muitos anos.

By Ricardo Rocha

Nascido e criado em Vila Nova de Gaia, desde cedo me apaixonei por futebol. Tenho 18 anos, no secundário frequentei o curso de Comunicação Multimédia que me ajudou bastante para hoje realizar trabalhos escritos e também audiovisuais.

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