Nascido em Sesimbra, uma vila pacata do distrito de Setúbal, Flávio Paixão é um dos portugueses mais famosos da Polónia. O avançado português conta-nos em entrevista exclusiva o segredo para o sucesso, como foram os jogos da Champions League Asiática, a aventura na Polónia, a desilusão de não ter jogado na Seleção Nacional e conta-nos ainda o que é preciso para o seu clube de coração voltar a ser campeão nacional, o Sporting.

Na Polónia desde 2014, viu o seu apelido tornar-se sinónimo de golos.

Conta no currículo passagens pela Espanha, Irão, Escócia e claro, pela Polónia.

Fez sucesso por onde passou, demonstrou paixão e a sua mentalidade ofensiva foi algo assinalável, acaba de bater o recorde de estrangeiro com mais golos no campeonato polaco. Um prémio individual para juntar aos prémios coletivos ao serviço do Lechia, uma Taça da Polónia e uma Supertaça polaca.

Flávio Paixão é irmão gémeo de Marco Paixão e sempre que poderam aturam juntos, dividiram relvados, quando não havia essa oportunidade, era cada um por si.

Made in Sesimbra

Sesimbra é a vila pela qual começamos esta entrevista, foi lá que começou, deu os seus primeiros toques na bola, acabaria inevitavelmente por nascer um talento.

“Comecei no Sesimbra, visto que sou natural de lá fazia todo o sentido começar a jogar no clube da minha terra, entrei no Sesimbra com cinco anos e foi lá que eu ganhei motivação para jogar futebol.

Jogar num rival? A mudança para o FC Porto

Assumido adepto do Sporting Clube de Portugal, nunca pensou duas vezes em rumar à Invicta para rumar ao Futebol Clube do Porto.

“Jogar no FC Porto? Foi um grande passo na minha carreira. Infelizmente a equipa B acabou e não deu para chegar à primeira equipa. O meu objetivo era ir para a equipa principal. Quando acabou a equipa B acabei por me mudar para outro país.”

A vida no país dos nuestros hermanos 

Teve a sua primeira aventura fora de Portugal, acabou por rumar ao CF Villanovense, clube que militava na Segunda B, marcou 10 golos em 34 jogos possíveis. Acabou por mudar-se novamente, em 2007, para o sul de espanha, para jogar ao serviço do Jaen onde fez apenas 8 jogos, mudando-se novamente, ainda em 2007 para o Benidorm, uma equipa que também jogava na Segunda B, 53 jogos com 11 golos marcados.

“Sempre tive a ideia de jogarmos juntos, muito do tempo conseguimos, mas tivemos que nos separar quando fomos para Espanha, já tínhamos feitos épocas boas sozinho antes.

A Espanha sempre teve as melhores ligas do mundo, é um país onde se sabe jogar futebol, o campeonato lá é muito competitivo, joga-se bom futebol lá, e claro, queria chegar às equipas de grande nível espanholas. ”

E história foi feita no The Pride Of Lanarkshire

The Pride Of Lanarkshire, é desta maneira que os escoceses do Hamilton são conhecidos no seu país.

Com vontade abraçar novos desafios, muda-se para o Hamilton Academical, clube fundado em 1874, apesar de só ter feito duas épocas ao serviço do clube escocês foi suficiente para quebrar logo no primeiro ano o recorde de melhor posição de sempre no principal escalão.

“A mudança para a Escócia deveu-se por ser uma equipa de primeira liga, queria experimentar algo novo. No primeiro ano no Hamilton fizemos história, batemos o número de pontos feitos pelo Hamilton no Scottish Premiership.”

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A mentalidade negativa escocesa

“Depois do primeiro ano percebi que a mentalidade escocesa é muito negativa e não me consegui identificar. O que nos levou a sair de lá foi especialmente esse motivo. É um campeonato muito diferente do que eu estava habituado. Apesar de tudo fizemos história, fiquei feliz.”

Um Tractor cheio de história

À procura de um novo desafio na sua carreira eis que surge o Tractor, um clube iraniano que procurava glória nas competições continentais.

“A mudança para o Irão foi simplesmente o factor monetário, foi mais por aí. Passei dois anos fantásticos no Irão, foram duas grandes épocas, tive lá o Paulo Grilo, Vítor Campelos e o Toni, como treinadores, claro que tive momentos altos e baixos, mas deu-me a oportunidade de jogar na Champions League asiática o que só por si é uma sensação arrepiante.

Na altura tínhamos muitos jogadores da seleção, fazia da equipa uma das mais fortes do campeonato. Ainda hoje querem que volte ao Tractor, mas infelizmente a vida muda e hoje tenho outras prioridades, espero que eles tenham muita sorte, vão ficar sempre no meu coração. Amo muito aquele clube.”

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O fanatismo dos adeptos iranianos

Desengane-se quem pense que o futebol no Irão é desvalorizado ou não se liga muito ao desporto rei, é completamente o inverso.

“Eu sentia imenso o apoio dos adeptos, por exemplo, na Liga dos Campeões Asiática, uma prova semelhante à Liga dos Campeões mas para clube asiáticos, os nossos adeptos esgotavam um estádio de 60/70 mil lugares, todos os jogos. Jogo após jogo com 70 mil pessoas. É surreal. Era a estreia do clube nas competições asiáticas, havia muita euforia, voltaria a repetir esta experiência, sem dúvida. Sinto-me privilegiado por fazer parte da história do clube.”

As dificuldades no Irão

Não é fácil jogar num país com cultura e temperaturas diversas da nossas. Confessa que a chegada de Toni e companhia o ajudou a superar algumas dificuldades, mas que apesar de tudo, sabia que tinha sido contratado para jogar futebol.

“Sim, no início foi difícil. Obviamente que fui para lá para jogar futebol. Joguei com o Ramadão, jogamos com 45 graus, mas aos poucos e poucos fui-me adaptando. A chegada do Toni, do Vítor Campelos e do Paulo Grilo foi importante para mim, tínhamos um grupo fantástico e depois foi fazer o que mais sei fazer, jogar futebol. ”

Não é do tempo de Chopin, mas Flávio é música para os ouvidos polacos

Chega à Polónia, à terra de Marie Courie, de Fryderyk Chopin, ou simplesmente ao país de Lewandowski, resumidamente chega a um país que forma excelentes avançados. Ruma então com vontade de se afirmar em terras polacas e com vontade de fazer história.

“A vinda para o Slask foi uma decisão fantástica. Foi dar um passo grande na minha carreira. Chegar à primeira liga polaca foi uma escolha acertada. Na época seguinte se não me engano acabei por marcar dezanove golos, foi uma das melhores épocas de sempre aqui na Polónia a nível de golos. Arriscaria a dizer que foi uma das minhas melhores épocas. As coisas começaram a correr muito bem na Polónia.”

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Acusado de ser desleal… mas afinal a história é outra

“Eu tinha contrato até junho, eles falaram em renovação mas nunca fizeram nada formal, acabou por aparecer o Lechia. Após algumas negociações acabei por me mudar para o Lechia, é um dos maiores clubes da Polónia e foi por isso que mudei de clube. O presidente do Lechia falou comigo e apresentou-me um projeto muito ambicioso, eu fiquei interessado pelo interesse demonstrado em mim. Na Polónia não se sabe muito bem, mas foi como te disse, o Slask nunca fez uma proposta de renovação de contrato, então acabei por escolher o melhor para mim.”

“Se não fui à Seleção foi porque faltou sempre algo”

Corria o ano de 2014, ano de Mundial no Brasil, Flávio Paixão acenava a Paulo Bento uma possível convocatória, fruto das boas épocas no Tractor e do bom arranque no Slask. Acabou por não ser convocado, Paulo Bento acabou por levar Hélder Postiga (que estava na Lazio), Hugo Almeida (que jogava no Besiktas), Nani ( a fazer furor no Manchester United), Rafa (SC Braga), Varela (FC Porto) e Vieirinha (Wolfsburgo).

“Ir à seleção era um objetivo, temos dos melhores jogadores do mundo, sempre foi uma ambição minha representar o meu país. Se não fui à Seleção foi porque faltou sempre algo, serei sempre mais um português a torcer pelo meu país.

Obviamente que com as boas época constantemente que fiz me iludi que podia ir à seleção, mas é como te digo, se não fui chamado foi porque faltou algo.”

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“Quandas marcas muitos golos esperas ser convocado”

Na altura só Cristiano Ronaldo constava na lista de melhores marcadores portugueses acima de ti. Eras o segundo melhor marcador português do ano. Desiludido por não seres convocado?

“Em 2015, por exemplo, como disseste, foram mais de vinte golos, Cristiano Ronaldo foi o único português com mais golos que eu, obviamente que estava na expectativa de ser convocado. Quando marcas golos esperas ser convocado. Não tenho qualquer mágoa, trabalhei sempre ao máximo, sou português com muito orgulho, foi um objetivo que falhou na minha mas que acontece, respeitei e continuarei a respeitar sempre todas as escolhas dos selecionadores portugueses, estive sempre ao serviço do país caso fosse necessário.”

O sucesso no Lechia e o poder luso na Polónia

Consegues fazer imenso sucesso no Lechia, estás há cinco anos em Gdansk. 38 golos até ao momento. Era isto que querias quando te mudaste?

“Quando me mudei o meu objetivo era conquistar títulos, só me falta o título de campeão nacional visto que conquistamos a Taça da Polónia e a Supertaça. Tive o João Nunes e o Steven Vitória comigo, foram uma grande ajuda, são grandes jogadores, aliás, é excelente ver o Steven a ter sucesso no Moreirense, tal como Vítor Campelos. Foi um privilégio poder jogar e celebrar com eles.”

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A braçadeira de capitão e as qualidades do campeonato polaco

“A minha primeira época como capitão do Lechia… foi um ano histórico, foi algo inédito. Conquistamos a Taça da Polónia e mais tarde a Supertaça.  Relativamente ao campeonato é um campeonato difícil, sem dúvida que é um excelente campeonato mas é difícil, muitos chegam cá e não se adaptam. Cada vez há mais portugueses a rumar a Polónia, isso deve querer dizer algo, por algum motivo é.

O campeonato português é mais tático, aqui é aliar a força à técnica. Há muitos jogadores com vários jogos no principal escalão português e que chegam aqui mas que não se adaptam.”

E a jogar na Liga NOS, onde colocarias o Lechia na classificação?

(risos) Boa questão, o Lechia no campeonato português era equipa para lutar pelos lugares cimeiros, acho eu.

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Voltar a Portugal? Fora de questão, por agora

Tencionas voltar a Portugal?

“Voltar a Portugal? Fora de questão. Jogo onde as pessoas me querem. Não sou daqueles jogadores que diz que tem que acabar a carreira ou voltar a Portugal só para dizer que estão ou que acabaram a carreira em Portugal, estou muito bem na Polónia e não estou a pensar mudar-me.”

A paixão pelo Sporting, que sempre assumiu publicamente

Desiludido por não teres jogado no teu clube de coração?

“Sempre quis jogar no Sporting, um os meus principais objetivos da minha carreira era jogar pelo Sporting. Estive à espera de uma proposta do Sporting, mas continuo a apoia-los.”

Deixar Frederico Varandas trabalhar para obter sucesso

Quando questionado sobre o que seria necessário para o “seu” Sporting voltar a ser campeão, primeiro leu com atenção, refletiu sobre a questão e esboçou um sorriso.

“Para o Sporting ser campeão? (risos) É necessário deixarem o presidente trabalhar. Há muito caos no clube. É necessário haver estabilidade, é necessário apoiarmos o clube, creio que os adeptos tem que deixar o Frederico trabalhar, não é a mudar de presidência de ano a ano que vamos ter sucesso. Acredito que vamos ter sucesso com o tempo. Temos que fazer as coisas bem dentro do campo.”

 

 

 

 

 

 

 

 

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