Forte fisicamente, digno da sua posição está no Chipre à procura de fazer história. Começou muito novo a jogar futebol, ainda longe de imaginar o mundo profissional, mas a fome de bola mesmo sendo novo não o deixou ir para outros caminhos.

André Teixeira, defesa central do AEL Limassol, fez história o ano passado ao ajudar a sua equipa a vencer a Taça do Chipre após décadas sem a vencer.

Desde muito cedo num grande português não esquece o começo no Candal.

Made in Candal

Entrou no Candal, uma modesta equipa de Vila Nova de Gaia, a fome de bola mesmo sendo novo não o deixou ir para outros caminhos.

“Eu quando era mais novo andava sempre a futebol, o meu pai reparou que eu gostava muito daquilo. Comecei por jogar no Candal, tinha oito anos, a equipa ficava perto de minha casa e tinha um tio que jogava lá no clube, então o meu pai decidiu-me levar lá para treinar e em poucos minutos de treino eles disseram logo para eu ficar a jogar no Candal, na altura jogava na frente, era futebol de sete, fiquei lá até aos 10 anos.”

O FC Porto e o começar de uma carreira

Com talento nos pés acaba por se mudar para para o FC Porto,  escalão dos infantis. Fez toda a sua formação ao serviço dos azuis e brancos.

“Depois, num dos jogos do Candal contra o Porto, no fim do jogo, o treinador disse-me para ir lá no fim de época que ia haver uns treinos de captação, e assim foi. Fui lá na constituição e no fim do primeiro treino disseram-me para eu assinar e foi assim que começou a minha ligação ao FC Porto que viria a durar oito anos, fiquei muito nervoso mas feliz. Na altura fui logo para defesa central porque nesse ano o João Mário tinha ido para o Sporting e ele era um dos defesas centrais da equipa, como precisavam de alguém e devem ter visto que eu poderia vir a ter as características para jogar a central comecei a jogar nessa posição e não me arrependo”

Um jovem defesa portista com ambições

Querias vir a tornar-te num daqueles miúdos que começa a carreira muito novo num clube e sobem até à principal?

“Quando cheguei era um miúdo, não pensava dessa forma. Com o passar dos anos, com 16 ou 17, comecei a pensar nessa hipótese, cheguei a ir treinar com a equipa principal, aí sim, comecei a pensar várias vezes a jogar na equipa principal, passou-me isso na cabeça sim.”

Do Candal para a Seleção das Quinas

A fazer boas épocas ao serviço dos dragões, acaba por se estrear na Seleção Portuguesa a 2 de Dezembro de 2008, num particular contra a França, na altura com quinze anos. Nunca mais viria a largar a seleção nos escalões seguintes.

“Não me recordava que a minha estreia foi contra a França (risos). Relativamente à resposta, penso que foi o trabalho, foco e determinação. Desde miúdo que sempre sou muito competitivo e não quero perder em nada. O querer sempre sempre o melhor levou-me a trabalhar sempre mais, a querer dar o melhor de mim, claro que isso me ajudou a chegar aqui.”

Euro u-17 e euro de u-19

Boas épocas ao serviço do FC Porto garantiram a André Teixeira a convocatória para o Euro u-17 de 2010 e mais tarde no Euro u-19 de 2012, Portugal falharia o acesso à próxima fase após um empate com a Espanha (com um hat-trick de Jesé), uma derrota frente à Grécia e uma vitória frente à Estónia.

“Ficámos um bocado desiludidos por termos falhado o apuramento, íamos com esperanças de pelo menos passar a fase de grupos, depois de estarmos nas meias-finais era ir jogo a jogo. Inicialmente o objetivo era passar à próxima fase, na altura ficamos muito tristes e desiludidos.”

Uma seleção com erro de casting?

A sua geração não teve a melhor campanha europeia da história do futebol da Seleção das Quinas. André Teixeira dividiu os palcos com Ricardo Esgaio, Bruma, Ivan Cavaleiro, João Cancelo entre vários outros prodígios.

Foi um erro de ‘casting’?

“Não, tivemos azar.  Foi um geração que teve vários grandes jogadores, a maior parte deles está tudo a jogar a um alto nível, não houve erros. No Euro u-17 acabamos por apanhar a Suíça, a França e a Espanha, fomos eliminados por termos perdido o último jogo com a Espanha. No Europeu de u-19 foi aquela derrota com a Grécia, nesse jogo tivemos uma expulsão decisiva no início da partida.

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“A Espanha tinha Grimaldo, Saúl Ñiguez, Gerard Deulofeu, Paco Alcácer…”

“Mesmo tendo uma equipa forte encontrámos seleções muito fortes como a da Espanha, nesse jogo a Espanha tinha Grimaldo, Saúl Ñiguez, Gerard Deulofeu, Paco Alcácer, Jesé Rodríguez, Manquillo, Kepa Arrizabalaga que agora está no Chelsea. Nesse jogo foi um hat-trick de Jesé que colocou o resultado em 3-3, de Portugal acabaram por marcar João Mário, Bruma e André Gomes”

Desiludido pela saída do Porto?

“Não, não houve sentimento de desilusão, houve apenas aquele sentimento diferente de ter acabado um “relação” de oito anos. Encarei a minha saída como um novo desafio, estava bastante motivado. Eu saí de um clube grande para rumar a outro clube grande, um histórico do futebol português.”

Sem espaço no Porto, mudança para Belém

Sem conseguir dar o salto eis que surge o Belenenses e o Leixões. Primeiro a turma de Belém, estava na Segunda Liga nessa época, estávamos no ano de 2013, a estreia como sénior ao serviço do Belenenses. André Teixeira conseguiria também uma vaga nos sub-21 da Seleção Portuguesa, mas antes disso recuperou a boa forma física que já havia sido exibida na temporada passada ao serviço.

“Quando acabei por sair do Porto ainda havia indefinição se ia haver equipa B ou não e eu senti que mesmo que houvesse equipa B iam trazer os jogadores dos júniores e recuperar jogadores que tinham sido emprestados nessa época. Então, o meu empresário trouxe-me a proposta do Belenenses e eu achei que era o clube certo, acabei por aceitar este desafio e o projeto.”

Mitchell van der Gaag

“As memórias que tenho do Van der Gaag são todas muito boas, foi um treinador que eu gostei muito de ter. Ele também tinha sido central e trabalhava muito connosco a parte defensiva, a organização defensiva. Cresci muito com ele e foi bastante importante tê-lo apanhado no meu primeiro ano de sénior. Ele tinha uma personalidade muito forte, era muito exigente, ele obrigava-nos a dar tudo de nós. Foi das pessoas mais importantes com quem trabalhei, moldou-me bastante.”

A época de estreia e um título de campeão

E como correu esta época?

“A nível coletivo foi fantástica, correu muito bem, acabámos em primeiro e subimos de divisão com vinte e tal pontos de avanço para o segundo classificado. Vinte e tal jogos sem perder. A nível individual não joguei tanto como queria mas para uma primeira época foi muito positivo. Tínhamos uma equipa muito boa, bons colegas, bom treinador, lá está, só é pena ter jogado pouco, contudo o trabalho deu-nos frutos e subimos. Na Taça de Portugal também chegamos às meias-finais da Taça de Portugal, apenas perdemos para o Vitória de Guimarães”

Sem espaço no Leixões e o retorno ao Belenenses

Começa bem e é afastado do onze sem justificação no Leixões, regressa ao Belenenses mas a crise de resultados em Belém levou a uma falta de titularidades, uma época difícil.

“Nessa época fiz poucos jogos, fui emprestado ao Leixões no último dia do mercado. No início fiz logo três ou quatros jogos onde ganhámos todos os jogos, mas de um momento para o outro o treinador deixou de contar comigo. O Belenenses falou comigo e queria que eu voltasse, eu como não tinha vaga no Leixões voltei ao Belenenses. Quando lá cheguei o Belenenses lutava pela manutenção, já iam no terceiro treinador, cheguei em Janeiro, não deu para muito mais, foi uma época mais difícil.”

Uma Trofa com sabor amargo

Maus resultados, salários em atraso e uma descida sentenciada logo em Janeiro

“Eu precisava de jogar, precisava de minutos, surgiu o Trofense nessa altura. Cheguei em Janeiro, já estava a meio da época, a equipa já estava com bastante pontos de diferença para garantir a manutenção, na altura ainda tivemos uma sequência de bons resultados, o que gerou alguma esperança, mas foi muito complicado. Naquela época, nos últimos três meses houve salários em atraso, estavam só os jogadores, o roupeiro, a equipa técnica, não havia mais ninguém, tinham abandonado todos o clube. Foi muito difícil essa época.”

Mafra numa época atípica

Corria a época de 2015/2016. Uma época manchada pelo caso de corrupção e pela diminuição drástica de equipas na Segunda Liga, nesse ano desceram cinco equipas. Uma delas… foi o Mafra

“No ano seguinte fui para o Mafra, foi um clube que eu amei representar. Fiz quase todos os jogos todos, cresci bastante nesse ano. Nesse ano desceram cinco equipas diretas, foi algo “anormal”. Relativamente ao caso da corrupção não gosto de falar muito disso, não me compete a mim falar, até porque não foi nada connosco. Lamento que isto aconteça no futebol mas não tenho opinião formada sobre esse assunto. É triste que tenha acontecido.”

O regresso a Matosinhos e uma equipa com qualidade

A paixão antiga a Matosinhos fê-lo voltar onde não tivera sido feliz anteriormente. Encontrou uma equipa muito boa a nível coletivo, Bruno Lamas, João Lucas e Chiquinho. Entre outros.

“Novo ano, nova mudança (risos). Foi a primeira vez que me mudei sem ter contrato com o Belenenses, tinha assinado em definitivo com o Leixões. Encontrei uma equipa muito boa, tínhamos o Chiquinho, o Lamas, o João Lucas e outros jogadores com passagens diferentes na Primeira Liga como o Bruno China, o Ludovic. Sinto que podíamos ter feito algo mais mas acabámos por cumprir os objetivos.

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Foi à baliza para defender um livre e acabou a defender um penalti

Corria o ano de 2016 e o defesa tornou-se no herói improvável na Vila das Aves, onde acabou a defender a grande penalidade ocorrida nos instantes finais da partida da 10ª jornada e, com isso, garantir o empate para o Leixões.

“Lembro-me do lance. Na altura que fui para a baliza, não foi logo para ir defender o pênalti. O nosso guarda-redes foi expulso e já não tínhamos mais substituições. Fui para defender o livre, a bola bateu na barreira, sobrou para um jogador do Desportivo das Aves que entrou na área, caiu e marcaram grande penalidade. Nessa altura nem sei o que me passou pela cabeça, acreditei que podia defender. Perguntei ao Silvério para que lado é que o João Pedro (foi quem bateu o penalti) poderia bater, eles tinham jogado juntos na época anterior, ele acertou e eu defendi”

As competições europeias e a mudança para o AEL Limassol

“Eu queria sair de Portugal, rumar ao estrangeiro. Vi que o AEL Limassol se tinha qualificado para as competições europeias e tinha ido bem no campeonato. Vi que também tinham um treinador português e claro que isso ajudou.”

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Balanço positivo das três temporadas no Chipre

“A primeira época foi de adaptação, fiz apenas 11 jogos. Não joguei muito é verdade. Desde da chegada do atual treinador, o Dušan Kerkez, assumi a titularidade, tenho feito praticamente todos os jogos. O clube não ganhava a Taça do Chipre há mais de trinta anos! Foi uma loucura! As coisas têm-me corrido muito bem, estou a conseguir afirmar-me, estou adaptado tanto ao clube como ao país.”

Adeptos fanáticos mas contra a regra dos “cartões”

“Os adeptos são fanáticos! Ainda agora na Liga Europa quando fomos a Grécia levaram imensa gente. Contudo, infelizmente eles não vão aos estádios aqui nos jogos do campeonato, existe uma regra relativamente a um cartão qualquer, não te sei explicar. Eles estão contra esse cartão e em forma de protesto não vão aos estádios. Deu para ver a força deles quando fomos campeões da Taça do Chipre e na Liga Europa, mas não temos a sorte de os ver no estádio.”

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David bateu Golias e o AEL Limassol venceu a Taça do Chipre

30 anos depois, o AEL Limassol bateu o APOEL (clube mais vitorioso desta competição) e sagrou-se campeão pela sétima vez. A última vez que tiveram sido campeões datava de 1989, contra o Aris de Limassol por 3-2. Fez-se história em Nicósia.

“Foi fantástico, não te sei descrever, já não ganhavam há trinta anos, os adeptos queriam isto muito, foi excelente. Não eramos considerados favoritos mas conseguimos, fizemos uma campanha muito boa, eliminamos os rivais da nossa cidade e na final eliminamos o campeão, o APOEL. É um orgulho por o nosso nome na história do clube. A festa que as pessoas fizeram na cidade. Fiquei sem palavras.”

“A luta pelo título em Portugal vai ser a dois: o Benfica e o Porto”

Acompanha o futebol português, diz que não quer tentar adivinhar quem vai ser o campeão mas sublinha várias equipas que merecem destaque no panorama do futebol internacional e internacional.

“A luta pelo título vai ser a dois, o Benfica e o Porto, o que errar menos vai ser campeão. Não quero tentar adivinhar o vencedor da liga, porque é como te digo, vai ser entre eles. É uma surpresa agradável ver equipas como o Famalicão, a praticar bom futebol, com jogadores jovens e a surpreender, é bom vê-los lá em cima na tabela classificativa. O Vitória de Guimarães que apesar de não ter passado a fase de grupos da Liga Europa se fez enorme perante equipas difíceis como o Arsenal ou o Braga com o Wolverhampton”

“Famalicão merece um lugar no topo da tabela”

“A jogarem como estão a jogar acredito que fiquem no topo da tabela, ainda há o Sporting, que apesar de ter algumas derrotas não deixa de ser uma grande equipa. Há o Braga também, eles começaram mal o campeonato mas estão a recuperar terreno, mas só lhes compete a eles para lutar pelos lugares cimeiros, a continuarem a jogar assim acredito que tal aconteça, depende deles.”

Gostavas de regressar a Portugal?

“Sinceramente, neste momento o meu objetivo é continuar a fazer a minha carreira pelo estrangeiro, mas como é lógico, se fosse uma proposta que eu sentisse que fosse o melhor para mim não diria que não, tenho que pensar no que é melhor para mim.”

Recebeste em algum momento alguma proposta de um clube português para regressares?

“Não, que eu saiba não me chegou nada”

O sonho de jogar na Seleção Nacional

Com passagens nos u-17, u-19, u-21, falta apenas a estreia na Seleção Nacional A. Um sonho por cumprir?

“Sei o trabalho que faço e sei o quanto me dedico, óbvio que tenho esse sonho em mente. Sei que estando aqui no Chipre é difícil ter esta oportunidade, mas não desisto de nada, por isso continuo a acreditar que é possível, não deixo de acreditar”

 

 

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